Energia renovável, água e espaço colocam região diante de uma oportunidade bilionária
A próxima grande disputa da infraestrutura brasileira pode acontecer longe dos tradicionais polos tecnológicos. Com a expansão da inteligência artificial, a necessidade de processamento, armazenamento e transmissão de dados transformou os data centers em ativos estratégicos da economia. E o Norte de Minas tem motivos para colocar seu nome nessa discussão.
O movimento nacional ganhou velocidade com o avanço do Redata, regime especial criado para estimular investimentos em centros de processamento de dados. A indústria estima que a nova fase possa atrair até R$ 1,5 trilhão em investimentos no Brasil. Segundo estudo da FGV Projetos, um data center de 100 MW pode representar aproximadamente R$ 25 bilhões em investimentos e gerar até 37,2 mil empregos, somando postos diretos, indiretos e induzidos. Após a implantação, a estimativa é de cerca de 1.860 empregos permanentes.
O impacto vai muito além dos profissionais de tecnologia. Engenharia, construção civil, energia, telecomunicações, fibra óptica, segurança, refrigeração, manutenção, logística, alimentação, transporte, serviços jurídicos, contabilidade e consultoria entram na cadeia. A própria ABDI identifica uma ampla cadeia de fornecedores e serviços associada à construção e operação desses complexos.
É nesse ponto que o Norte de Minas pode apresentar uma combinação diferenciada de ativos.
Montes Claros possui posição estratégica regional, infraestrutura urbana, universidades, mercado consumidor e conexão com diferentes municípios. Ao mesmo tempo, o eixo Jaíba–Janaúba se destaca pela geração solar. Estudos da Empresa de Pesquisa Energética já apontaram a necessidade de ampliar a capacidade de escoamento da geração fotovoltaica da região, incluindo reforços na Subestação Janaúba 3 para absorver novos projetos.
A região também vem acumulando investimentos em infraestrutura elétrica. A expansão de subestações e linhas de transmissão cria condições para conectar novos projetos de geração e consumo — justamente um dos pontos centrais para empreendimentos que exigem grande quantidade de energia.
Há ainda um argumento estratégico. A Taesa avalia que data centers podem ajudar a aproximar grandes cargas dos locais onde existe geração renovável, reduzindo desequilíbrios entre oferta e consumo. A companhia cita justamente a possibilidade de descentralizar estruturas voltadas à inteligência artificial para regiões com grande geração solar e eólica.
Nesse cenário, Jaíba, Janaúba, Montes Claros e outros municípios com capacidade energética e territorial poderiam entrar em estudos de localização. Mas a análise precisa avançar para além da energia.
A disponibilidade hídrica também merece atenção. A calha do Rio São Francisco, alcançando municípios como Várzea da Palma, Pirapora, Buritizeiro, Ibaí, São Romão, São Francisco, Januária, Itacarambi, Manga e áreas próximas, representa um ativo regional importante. A ANA reconhece o peso estratégico da bacia para abastecimento, irrigação, indústria e geração de energia.
Isso não significa que qualquer área próxima ao rio esteja automaticamente apta a receber um data center. O uso da água depende de disponibilidade efetiva, outorga, qualidade, licenciamento e concorrência com abastecimento, agricultura e outros setores. O debate nacional já mostra que água e energia estão entre os principais pontos de atenção ambiental desses empreendimentos.
O mesmo raciocínio vale para barragens e reservatórios do Norte de Minas, incluindo estruturas e projetos associados a Jequitaí, Janaúba, Porteirinha, Salinas e outras áreas. Mais do que simplesmente apontar água disponível, será necessário transformar esses ativos em informações técnicas sobre segurança hídrica, capacidade de atendimento e sustentabilidade.
A oportunidade, portanto, não está em esperar que uma empresa descubra o Norte de Minas. Está em mapear antecipadamente energia, terrenos, água, conectividade, transmissão, fibra óptica, incentivos, mão de obra e capacidade ambiental, formando um portfólio regional para apresentar aos investidores.
A instalação de um data center não termina na construção de um enorme galpão cheio de servidores. Ela cria uma infraestrutura permanente que demanda energia, telecomunicações, engenharia, segurança, refrigeração, manutenção, tecnologia, logística e profissionais especializados.
O dado da FGV ajuda a dimensionar esse efeito: uma unidade de 100 MW pode movimentar R$ 25 bilhões e gerar 37,2 mil empregos entre efeitos diretos, indiretos e induzidos.
Para o Norte de Minas, isso abre uma agenda que envolve universidades, escolas técnicas, empresas de tecnologia, construtoras, fornecedores de equipamentos, prestadores de serviços e startups.
O desafio é preparar a região antes da chegada do investimento. Formar profissionais, ampliar conectividade, estruturar áreas industriais, identificar pontos de conexão elétrica, mapear disponibilidade hídrica e criar uma política regional de atração podem transformar uma vantagem natural em vantagem competitiva.
O Norte de Minas não precisa apenas produzir energia para o futuro digital do Brasil. Pode também ser um dos lugares onde esse futuro será processado, armazenado e desenvolvido.