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Ritmo lento alerta para risco de recessão

Apesar das projeções otimistas do governo para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano e do próximo, indicadores recentes confirmam um processo de desaceleração na atividade econômica em curso, mesmo com todo o impulso fiscal que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) despejou na economia desde o começo do ano. A fatura dessa gastança cairá no colo do governo que assume em janeiro, independentemente do vitorioso nas eleições em outubro, segundo especialistas que advertem sobre o risco crescente de uma recessão que entrou no radar. 

O dado mais recente do Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br), conhecido como prévia do PIB, do dia 17, com recuo de 0,64% em junho, confirmou essa tendência de desaceleração. O dado do IBC-Br ainda veio pior do que o esperado pelo mercado, cujo consenso esperava queda de 0,5%, e, nos últimos dias, várias casas voltaram para as planilhas para refazerem as projeções, tanto para o PIB do segundo trimestre e tudo indica que as deste ano e a de 2027 devem continuar sendo revisadas para baixo.

Com a volta do risco fiscal no radar e a desaceleração em curso, as projeções de crescimento do PIB deste estão abaixo de 2%, enquanto o governo ainda prevê alta de 2,3%. E, para 2027, as novas estimativas caminham, cada vez mais, para perto de 1% mostrando que o PIB brasileiro já está com o pé no freio devido ao longo período de juros elevados pelo Banco Central. De acordo com analistas, os estímulos fiscais e parafiscais (como subsídios financeiros) do governo neste ano, seja via isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, seja com os subsídios sobre os combustíveis, seja com os estímulos para a renegociação de dívidas com o novo Desenrola, ou para socorrer os exportadores afetados pelo novo tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ultrapassaram R$ 200 bilhões e giram em torno de 1,4% a 1,5% do PIB. Essa gastança, inclusive, têm ajudado a amenizar a desaceleração da atividade econômica e a evitar uma recessão, mas esse debate não está totalmente descartado no próximo ano, especialmente se o temido ajuste fiscal não ocorrer.

Analistas reforçam os alertas sobre o desequilíbrio fiscal crescente devido ao descompasso do ritmo do aumento das despesas com o da receita no primeiro semestre do ano. Como resultado, a dívida pública não para de crescer e está no mesmo patamar de 2020, ano da pandemia da covid-19, sem que houvesse uma crise financeira ou de saúde de mesma magnitude. Conforme dados do Fundo Monetário Nacional (FMI), que considera os títulos do Tesouro Nacional na carteira do Banco Central, a dívida pública bruta poderá chegar a 96% do PIB, no fim deste ano, mesmo patamar de 2020, e, em 2027, a 100% do PIB.  Vale lembrar que, pela metodologia do Banco Central, em 2022, a dívida pública bruta estava em 71,7%, do PIB, e, em junho, chegou a 81,9% do PIB.

Como consequência do desequilíbrio das contas públicas persistente, as projeções para o PIB começam a refletir o impacto da política monetária restritiva do Banco Central, que manteve os juros elevados por um período bastante prolongado. Atualmente, a taxa básica da economia (Selic), está em 14% ao ano, e deverá continuar em dois dígitos, pelo menos, até 2029, pelas estimativas apontadas no boletim Focus, do BC. Analistas também reconhecem que esse processo de desaceleração reflete o elevado endividamento das empresas e das famílias em meio aos juros em patamares restritivos.

Enquanto isso, as novas projeções para o PIB estão abaixo de 2% e, para 2027, estão sendo reduzidas há quatro semanas seguidas e, na média, estão mais próximas de 1%. Segundo os especialistas, entre os principais fatores para esse cenário estão os efeitos defasados dos juros restritivos, os impactos da desaceleração e dos desastres naturais que podem ser provocados pelo fenômeno climático El Niño que está em formação no Oceano Pacífico. Apesar de o Banco Central ter dado início ao ciclo de corte na taxa Selic em março, os estímulos do governo na atividade atrasaram o processo de arrefecimento da atividade. E, como as incertezas no mercado externo estão aumentando em função da indefinição do conflito no Oriente Médio, e também com o início do fenômeno El Niño, esse ciclo de redução de juros será menor, tanto que as apostas do mercado indicam 70% de probabilidade de corte na próxima reunião do Comitê de  Política Monetária (Copom) em setembro. 

“O efeito da política monetária restritiva está se sobrepondo ao efeito expansionista da política fiscal somada à política expansionista de crédito, mesmo em ano de eleição, ou talvez por conta disso, fazendo com que a demanda venha esfriando — endividamento e inadimplência muito altos dos consumidores, e a oferta reduzindo investimentos e produção (novamente endividamento e inadimplência crescentes e incertezas quanto ao consumo futuro e nova gestão da economia em 2027)”, destacou o economista Ecio Costa, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Em seguida, acrescenta o pesquisador: “Para completar, o cenário internacional também é de crescimento mais moderado, que tem impactado o agronegócio brasileiro, além de outros setores, como o de commodities minerais e combustíveis fósseis”.

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