Acelen Agripark amplia produção de mudas e supera 80% de germinação
A macaúba, espécie nativa com potencial para produção de óleo e energia renovável, começa a ganhar uma nova dimensão em Minas Gerais a partir de uma estrutura instalada em Montes Claros. O Acelen Agripark, centro de inovação da Acelen Renovável, completou um ano de operação reunindo pesquisa, tecnologia e produção em torno de uma proposta ambiciosa: transformar a macaúba em uma cultura de escala comercial.
O principal avanço está na produção de mudas. A biofábrica robotizada instalada no município tem capacidade para escarificar e germinar até 1,7 milhão de sementes por mês. O resultado enfrenta um dos principais obstáculos históricos para a expansão da espécie: sua baixa taxa natural de germinação, estimada entre 3% e 5%.
Em pesquisas desenvolvidas em parceria com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), o Agripark conseguiu elevar a germinação para mais de 80%. A evolução é considerada estratégica porque a disponibilidade de mudas em quantidade e qualidade é uma das condições necessárias para estruturar uma cadeia produtiva capaz de atender à futura demanda industrial.
A estrutura instalada em Montes Claros reúne biofábrica, laboratórios de pesquisa e desenvolvimento, viveiros, áreas experimentais e uma usina-piloto. A integração permite que conhecimentos obtidos em laboratório e no campo sejam testados e incorporados ao processo produtivo.
Mais do que produzir mudas, o projeto busca compreender toda a cadeia da macaúba, desde a identificação das áreas de ocorrência natural até a seleção de materiais, clonagem, cultivo, processamento e aproveitamento da matéria-prima.
Inteligência artificial no campo
Uma das frentes de inovação utiliza imagens de satélite e algoritmos de inteligência artificial para localizar maciços naturais de macaúba em Minas Gerais.
Segundo informações apresentadas pela Acelen Renovável, foram analisados aproximadamente 4,5 milhões de hectares, permitindo identificar mais de 500 maciços naturais da espécie no Estado. Desse universo, cerca de 126 áreas tiveram seu potencial produtivo de óleo caracterizado e 11 foram contratadas para integrar o projeto, principalmente nas regiões Central Mineira e Alto Paranaíba.
O uso da tecnologia amplia a capacidade de identificação dos recursos naturais e fornece informações para orientar a seleção de materiais que poderão contribuir para a formação da futura base produtiva.
O trabalho também demonstra como ferramentas digitais podem ser utilizadas para apoiar o desenvolvimento de cadeias agrícolas ainda pouco estruturadas. Nesse caso, a inteligência artificial funciona como instrumento para localizar, mapear e interpretar a ocorrência da espécie em grandes extensões territoriais.
Montes Claros como centro da estratégia
A escolha de Montes Claros para receber o Agripark está relacionada à localização estratégica do município, à infraestrutura logística e à proximidade com instituições de pesquisa e ensino.
A cidade possui conexões rodoviárias com diferentes regiões de Minas Gerais e abriga instituições como a Unimontes, que participa das pesquisas relacionadas à macaúba.
A presença do Agripark amplia, portanto, a possibilidade de integração entre empresas, universidades, pesquisadores, produtores e profissionais ligados ao agronegócio. A estrutura permite concentrar etapas fundamentais do desenvolvimento da cultura e transformar conhecimento científico em aplicações produtivas.
Além da biofábrica, o complexo conta com pré-viveiro, laboratório de produção de sementes e extratora-piloto, permitindo acompanhar diferentes fases do desenvolvimento da cadeia.
Clonagem e seleção
Outra frente do projeto é o desenvolvimento de um programa de clonagem, voltado à criação de clones locais e ao estabelecimento de metodologias para reprodução da macaúba.
A seleção de materiais é importante para uma cultura que pretende alcançar escala industrial. O objetivo é formar uma base genética e produtiva que possa responder às necessidades futuras da cadeia.
Nesse processo, o Agripark funciona como uma espécie de ponte entre o conhecimento encontrado nos maciços naturais, a pesquisa científica e a produção comercial de mudas.
Produção e recuperação ambiental
O projeto também incorpora uma dimensão ambiental. A propriedade escolhida para instalação do complexo em Montes Claros possui histórico de baixa utilização produtiva e solos considerados bastante exauridos.
A proposta é utilizar áreas degradadas ou de baixa produtividade para desenvolver uma atividade capaz de combinar produção agrícola, recuperação ambiental e geração de energia renovável.
Essa característica amplia a importância do projeto para regiões que enfrentam desafios relacionados à recuperação de solos e à necessidade de diversificação econômica no meio rural.
A lógica é transformar a própria recuperação dessas áreas em parte de um modelo produtivo, associando o cultivo da macaúba ao aproveitamento industrial de sua matéria-prima.
Da semente ao combustível
A estratégia da Acelen Renovável vai além da produção agrícola. A empresa pretende utilizar a macaúba como matéria-prima para a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e HVO, combustíveis renováveis associados à transição energética.
Nesse cenário, a produção de mudas em larga escala se torna uma etapa fundamental. Sem uma oferta regular de plantas, não há como estabelecer uma cadeia de fornecimento capaz de sustentar uma indústria de grande porte.
É justamente nesse ponto que os resultados do primeiro ano do Agripark ganham relevância. A capacidade potencial de 1,7 milhão de sementes processadas e germinadas por mês, combinada à taxa superior a 80%, cria uma condição tecnológica significativamente diferente daquela enfrentada pela macaúba em seu processo natural de reprodução.
O desafio, entretanto, não termina na produção das mudas. Será necessário consolidar a produtividade no campo, selecionar materiais adequados, estruturar produtores e áreas de cultivo, garantir escala e desenvolver mercados para a matéria-prima.
Um novo capítulo para o agro regional
Depois de um ano de atividades, o Acelen Agripark coloca Montes Claros no centro de um projeto que reúne agricultura, ciência, inteligência artificial, recuperação de áreas e energia renovável.
A macaúba deixa de ser observada apenas como uma espécie nativa de potencial econômico e passa a ser trabalhada dentro de uma estratégia de desenvolvimento de cadeia produtiva.
Para Montes Claros e o Norte de Minas, o projeto pode representar uma oportunidade de diversificação do agronegócio e de atração de conhecimento, investimentos e novas atividades ligadas à bioeconomia.
O caminho, porém, ainda está em construção. A tecnologia desenvolvida no primeiro ano resolve uma etapa importante — a produção de mudas —, mas a consolidação da macaúba como cultura comercial dependerá dos resultados das próximas fases.
O que já está estabelecido é uma estrutura que começa na semente, passa pela pesquisa e produção de mudas, avança para o cultivo e processamento e aponta para um objetivo de maior escala: transformar uma espécie nativa em matéria-prima de uma nova cadeia de combustíveis renováveis.
Para Montes Claros, o movimento reforça uma vocação que vai além da produção tradicional: a possibilidade de se tornar um polo de inovação, bioeconomia e agroenergia no Norte de Minas.