A implantação de uma política pública específica e permanente para o enfrentamento da doença de Chagas foi a principal reivindicação apresentada durante audiência pública realizada pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na segunda-feira (23), em Espinosa, no Norte de Minas. O município está entre os mais afetados do país por essa enfermidade, considerada endêmica na região.
A reunião foi solicitada pelo presidente da comissão, deputado Arlen Santiago, e teve como objetivo avaliar os resultados das ações de controle da doença, além de discutir o andamento de dois programas federais recentes: o Integra Chagas Brasil e o Cuida Chagas. Participaram profissionais de saúde, representantes do Ministério da Saúde e pessoas que convivem com a doença.
Entre as principais demandas apresentadas está a ampliação da aplicação do teste rápido para diagnóstico precoce e a expansão da oferta de atendimento de média e alta complexidade na região. A cardiologista Michella Assunção Roque, que atua no município, destacou que muitos pacientes necessitam de consultas com especialistas, como cardiologistas e gastroenterologistas, além de exames específicos do sistema cardíaco e digestivo.
Segundo ela, boa parte desses procedimentos não é plenamente ofertada na rede local, o que obriga o município a utilizar recursos próprios para custear atendimentos fora da cidade. Ainda assim, os valores não são suficientes para suprir toda a demanda. A médica ressaltou que o problema não se restringe a Espinosa, mas atinge grande parte do Norte de Minas, exigindo maior apoio dos governos estadual e federal.
O teste rápido, desenvolvido por Biomanguinhos/Fiocruz, foi apontado como ferramenta essencial para o diagnóstico em larga escala. Atualmente, Espinosa é uma das poucas localidades onde ele é aplicado de forma estruturada. A partir do resultado positivo, o paciente realiza exame confirmatório de sangue. Se a doença for diagnosticada antes da fase crônica, é possível iniciar o tratamento etiológico com medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nos casos em que já há comprometimento cardíaco ou digestivo, o acompanhamento passa a ser especializado.
Descoberta em 1909, em Lassance, também no Norte de Minas, pelo médico sanitarista Carlos Chagas, a enfermidade continua apresentando altos índices de infecção na região. Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido pelo inseto conhecido como barbeiro, a doença possui fase aguda — com sintomas como febre e inchaços — e fase crônica, quando pode afetar órgãos como coração e intestino. O diagnóstico precoce é determinante para evitar complicações graves.
O coordenador do Projeto Integra Chagas Brasil, Alberto Novaes Ramos, explicou que a iniciativa busca ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento em áreas endêmicas, a partir da atenção primária e da articulação com a vigilância em saúde. O projeto atua em cinco municípios de quatro estados — Minas Gerais, Bahia, Goiás e Pernambuco — sendo Espinosa e Porteirinha os representantes mineiros.
Em Espinosa, cerca de 11 mil pessoas já foram alcançadas pelas ações do programa, o que representa aproximadamente um terço da população local. Desse total, 777 foram diagnosticadas com a doença. Em Porteirinha, o número de casos identificados se aproxima de 700. Segundo o coordenador, os dados revelam a dimensão do problema e reforçam a importância da estratégia de testagem em massa.
Ele destacou ainda que menos de 10% das pessoas infectadas sabem que têm a doença e, entre essas, menos de 1% recebe tratamento adequado. Nos municípios atendidos pelo projeto, porém, quase 80% dos diagnosticados podem ser acompanhados na própria atenção primária, fortalecendo o papel do SUS na assistência contínua.
A audiência também abriu espaço para o relato de pacientes. Edivar Pereira da Silva, presidente da Associação das Pessoas com Doença de Chagas (APDChagas), descreveu o convívio com a enfermidade como um sofrimento constante, marcado pelo medo da morte súbita na fase crônica. Para ele, a doença é historicamente negligenciada e carece de investimentos em pesquisa para desenvolvimento de novos medicamentos e terapias.
O deputado Arlen Santiago afirmou que há preocupação com a continuidade dos programas federais voltados ao enfrentamento da doença. Segundo ele, a interrupção das iniciativas poderia comprometer o fornecimento de testes rápidos e enfraquecer as ações de diagnóstico e tratamento.
Ao final da audiência, ficou reforçada a necessidade de consolidar uma política pública estruturada, com financiamento contínuo, ampliação da testagem, fortalecimento da rede de média e alta complexidade e garantia de acompanhamento integral aos pacientes. Em uma região onde a doença permanece presente há mais de um século, autoridades, profissionais de saúde e moradores defendem que o combate à Chagas deixe de ser pontual e passe a integrar, de forma permanente, as prioridades da saúde pública.