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Da saudade à resistência: a poesia sensível e social da escritora corjesuense

A obra da poetisa ganhou destaque em uma exposição no Painel Permanente Juca Silva Neto em Montes Claros

A obra da poetisa ganhou destaque em uma exposição no Painel Permanente Juca Silva Neto em Montes Claros

A obra da poetisa Catiane D’áura ganhou destaque em uma exposição no Painel Permanente de Poesia Juca Silva Neto, instalado no Centro Cultural Hermes de Paula (CCHP), em Montes Claros. A mostra reúne poemas que refletem a trajetória literária da autora, natural de Coração de Jesus, formada em Letras e atualmente residente em Tombos, mantendo forte ligação com o cenário cultural do Norte de Minas.

Catiane D’áura aponta Montes Claros como um dos pilares centrais de sua formação artística e literária. Ela afirma que foi na cidade que encontrou estímulo e coragem para tornar pública uma produção que, até então, permanecia guardada. “Foi fundamental, porque eu já escrevia, mas ficava tudo guardado. A partir do Psiu Poético eu criei coragem de mostrar a minha produção, de tirar o poema do fio, de declamar”, relata.

A autora corjesuense conta que escreve desde os 12 anos de idade e que esse hábito moldou profundamente sua forma de enxergar o mundo. “O poeta olha tudo pensando que aquilo pode virar verso. A gente já observa com esse olhar artístico, atento ao que pode ser transformado em poema”, explica.

Segundo a escritora, a construção da sua escrita foi fortemente influenciada pelo ambiente familiar, marcado pelo incentivo à leitura, e pelo contato com outros poetas ao longo da vida. “Minha família sempre leu muito e me apresentou à leitura. Isso foi melhorando a minha escrita. Eu fui lendo poetas e construindo meu jeito de escrever”, diz. Ela destaca ainda a importância de ouvir o outro como parte do processo criativo. “Observar o mundo, os outros poetas e as pessoas ao redor ajuda muito. É assim que a gente aprende a olhar”.

Entre as principais referências literárias, Catiane cita nomes consagrados da poesia brasileira. “Eu gosto muito do Manuel Bandeira e do Mário Quintana. Foram fundamentais no início da construção da minha escrita”, afirma. Entre as mulheres, ela destaca Cecília Meireles. “No início, era a única poeta mulher que eu conhecia. Depois fui pesquisar outras. Infelizmente as mulheres sempre tiveram menos visibilidade, e isso era ainda mais forte quando se tratava de mulheres negras”, observa.

Autora dos livros Saudadice e Ela Sou Eu, Catiane explica que as obras têm propostas distintas. O primeiro nasceu da tentativa de expressar um sentimento profundo de saudade. “Eu não consegui achar uma palavra que transmitisse tudo o que eu queria mostrar, então criei ‘Saudadice’. Todos os versos foram editados pela saudade, foi ela que me ‘disse’ o livro”, resume. Já Ela Sou Eu surgiu a partir da escuta de relatos de mulheres, especialmente alunas, sobre situações de violência e sofrimento. “Eu quis dar voz a essas histórias. Todas as mulheres vivem obstáculos que se repetem. Eu sou um pouco delas e elas são um pouco de mim”, afirma.

A autora avalia que houve uma evolução significativa entre as duas obras. “Saudadice é um olhar mais para dentro, mais subjetivo. Já Ela Sou Eu é um olhar totalmente voltado para o outro, baseado principalmente nas experiências de outras mulheres, não só nas minhas”, explica.

Nesse processo de amadurecimento, a formação acadêmica na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) teve papel decisivo. “Eu estudei letras com professores muito bons, mas foi principalmente na teoria literária com a professora Ilca Vieira de Oliveira que aprendi o que é poesia de verdade, o que é um verso bom e o que é um estudo clássico. Isso refinou muito a minha escrita”, destaca, citando a importância do incentivo à produção textual e do contato com autores clássicos.

Catiane também ressalta o papel dos eventos literários na formação de novos escritores, especialmente iniciativas como o Psiu Poético. “Ele faz a arte sair da parede e ir para a rua, para a escola, para a rodoviária. A arte vai até as pessoas que, muitas vezes, não iriam até ela”, afirma. Para a poeta, esse modelo deveria inspirar outras cidades do Norte de Minas. “Ali você planta uma sementinha da literatura, da poesia. Sou muito grata por isso e, se pudesse, gostaria que toda cidade tivesse um Psiu Poético”, diz.

Ao comentar apresentações recentes de seu trabalho, Catiane avalia a experiência como positiva e inspiradora. “Foi uma coisa muito bacana. Despertou ideias para a escola, para outros lugares e para os meus próximos trabalhos artísticos. Com certeza isso impulsiona a vontade de continuar escrevendo”, conclui.

A exposição foi aberta com um sarau realizado na segunda-feira (19), e permanece aberta à visitação até o dia 31 de janeiro, com entrada gratuita.

A obra da poetisa ganhou destaque em uma exposição no Painel Permanente Juca Silva Neto em Montes Claros

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