A agenda legislativa na ordem do dia depois da reeleição do presidente Lula também tem como objetivo político a manutenção de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) nos comandos da Câmara e do Senado, respectivamente. A votação de propostas de grande repercussão social, como a PEC da Segurança Pública, aprovada nessa terça-feira, e a regulamentação do fim da escala 6 x 1, a negociação de espaços no futuro ministério e as articulações para preencher vagas em tribunais integram a construção da maioria que deverá sustentar o seu quarto mandato. Nesse sentido, a governabilidade dependerá do Centrão.
Logo após o segundo turno, Lula sinalizou apoio à recondução de Motta e Alcolumbre, para impedir que a reorganização do Congresso fosse comandada pela oposição bolsonarista. Em contrapartida, espera encontrar disposição para aprovar matérias que permitam apresentar resultados antes mesmo da posse. O fim da escala 6 x 1 e emenda constitucional da segurança pública são agendas de amplo apelo popular que o Centrão tem oportunidade da faturar politicamente.
Entretanto, é um engano acreditar que se trata de uma adesão programática do Centrão ao quarto mandato de Lula, cujo projeto ainda não está suficientemente explicitado. Trata-se de uma aliança de conveniência conjuntural de entre forças com bases eleitorais, prioridades e ambições próprias, que não confiam plenamente umas nas outras. A convergência pelo controle do Congresso não elimina os conflitos sobre o Orçamento, a distribuição de cargos e o alcance das políticas públicas. A eleição das mesas diretoras é apenas a primeira prova dessa composição entre Lula, Motta e Alcolumbre. O xis da questão serão as decisões que distribuem custos em vez de benefícios.
A montagem do ministério faz parte da mesma negociação. A possível permanência de Gustavo Feliciano, no Turismo, e de Waldez Góes, na Integração e Desenvolvimento Regional, sinaliza a preservação de espaços vinculados aos presidentes do Congresso. A hipótese de entregar a Secretaria de Relações Institucionais a um parlamentar do Centrão, como Silvio Costa Filho, vai além da acomodação partidária: significaria trazer para dentro do Planalto um representante das forças com as quais o governo precisará negociar diariamente.
Mas essas conjecturas não se traduziram ainda em convites formais — são especulativas. A presença de um integrante do Centrão no comando da articulação política, entretanto, pode inverter a mão das negociações, com um representante exclusivo das demandas parlamentares dentro do Executivo. O desafio será encontrar alguém capaz de levar as prioridades presidenciais ao Congresso e incorporar à ação governamental reivindicações legítimas dos aliados.