Abril chegou. E com ele, mais uma vez, vemos prédios iluminados de azul, campanhas nas redes sociais e muitas mensagens falando sobre o autismo.
Mas eu preciso começar com uma provocação: conscientizar não é o suficiente.
Eu passei 40 anos da minha vida sem entender por que eu me sentia diferente. Eu não me encaixava. Não era falta de esforço. Não era falta de vontade. Era como se o mundo tivesse um manual, que nunca me foi entregue.
Durante anos, eu aprendi a “funcionar”. A me adaptar. A esconder o cansaço. A pagar um preço silencioso para ser aceito.
Até que veio o diagnóstico de autismo. E, com ele, algo que muita gente não entende: não foi o começo de um problema, foi o fim de uma dúvida.
O diagnóstico não me limitou. Ele me trouxe clareza. Me deu nome para dores antigas. E, principalmente, me deu senso de pertencimento.
Hoje, além de autista, sou pai de filhos autistas. E isso muda tudo.
Porque o que antes era vivência, hoje também é responsabilidade. Responsabilidade de lutar. Responsabilidade de informar. Responsabilidade de não permitir que outras famílias passem anos no escuro como eu passei.
Atuo como advogado especialista nos direitos das pessoas autistas. E aqui vai uma verdade que precisa ser dita com coragem: o maior desafio do autismo não está na pessoa autista, está nas barreiras impostas pela sociedade.
A criança autista não sofre apenas por suas dificuldades. Ela sofre quando a escola não se adapta. Quando o apoio é negado. Quando o direito vira favor.
A família não sofre só pelo diagnóstico. Ela sofre pela falta de informação, pela burocracia, pelo cansaço de ter que lutar todos os dias por aquilo que já deveria estar garantido por lei.
E sim, existem leis.
No Brasil, a pessoa autista é reconhecida como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais (Lei Berenice Piana – Lei nº 12.764/2012). Tem direito à inclusão escolar, ao atendimento adequado na saúde, à proteção social.
Mas aqui está o problema: ter direito no papel não significa ter direito na prática. E é por isso que abril não pode ser apenas um mês de “conscientização bonita”.
Ele precisa ser um mês de verdade. Um mês para aprender. Um mês para ouvir. Um mês para questionar práticas erradas. Um mês para transformar informação em atitude.
Se você é pai ou mãe atípico, eu quero te dizer algo direto: Você não está sozinho. E você não precisa aceitar menos do que a lei garante ao seu filho.
Se você é educador, profissional da saúde ou gestor público: Inclusão não é um favor. É um dever.
E se você não vive o autismo de perto, mas está lendo este texto: Você também faz parte dessa mudança. Respeito começa na informação.
Mas só se completa na ação.
Hoje, eu entendo quem eu sou. Entendo minhas limitações, mas também reconheço minhas capacidades.
E mais importante: eu transformei a minha história em missão. Levar informação. Garantir direitos. Dar voz a quem muitas vezes não é ouvido.
Porque no final, o que toda pessoa autista busca não é privilégio. É algo muito mais simples, e muito mais poderoso: PERTENCER.
Bruno Freitas da Silva.