Projetos bilionários em etanol, biodiesel, carne e infraestrutura reforçam o crescimento do agronegócio brasileiro
No ano passado, o agronegócio brasileiro registrou anúncios de investimentos superiores a R$ 60 bilhões, segundo levantamento da reportagem do Valor, com base em dados de consultorias, entidades setoriais e comunicados à imprensa. Grande parte desse montante foi impulsionada pela expansão das usinas de etanol de milho, que receberam atenção especial do mercado.
A consultoria FG/A apontou que apenas os investimentos em capacidade industrial de etanol de milho somaram R$ 41 bilhões, distribuídos em 44 projetos que, se confirmados, devem adicionar 12 bilhões de litros por ano à produção nacional. Entre os principais anúncios está o da Inpasa, envolvendo R$ 3,5 bilhões para construção de uma nova planta em Rondonópolis (MT) e ampliação da unidade de Nova Mutum (MT).
Segundo especialistas, a expansão do etanol de milho é favorecida pelas margens atrativas, disponibilidade de milho e condições de financiamento vantajosas, incluindo linhas de crédito do Fundo Clima do BNDES com taxas em torno de 8% ao ano. O volume de investimentos em etanol de milho anunciado em 2025 supera os R$ 30 bilhões que o setor de etanol de cana-de-açúcar anunciou em novos projetos entre 2009 e 2012.
De acordo com Felippe Serigatti, professor da FGV Agro, o biocombustível à base de milho permite gerar maior valor agregado devido à competitividade do custo de produção e à infraestrutura existente. A expansão do etanol também é estimulada pela Lei Combustível do Futuro, que permite aumentar a mistura de etanol anidro na gasolina até 35%, dependendo de estudos técnicos.
O segmento de biodiesel apresentou aportes significativos, embora menores que o etanol. Segundo a Abiove, processadoras de soja anunciaram R$ 5,9 bilhões em investimentos previstos até setembro de 2026, voltados ao esmagamento de soja e refino de óleo, representando 2,4% a mais que o ano móvel anterior.
Entre os destaques está a Frísia Cooperativa Agroindustrial, que investirá R$ 1 bilhão em esmagadoras de soja e armazéns no Paraná e em Tocantins, além de ampliar negócios em leite, carne suína, sementes e florestal. Segundo Daniel Furlan Amaral, diretor da Abiove, os investimentos em óleo de soja têm impulsionado o barateamento do farelo, beneficiando a pecuária confinada e semiconfinada. Os frigoríficos anunciaram R$ 1,539 bilhão em investimentos no Brasil e mais US$ 1,065 bilhão no exterior, voltados principalmente à expansão de linhas de produção para atender à demanda global por carne.
Os demais R$ 7,6 bilhões contemplam setores diversos do agronegócio, incluindo lácteos, café, fertilizantes, sementes e processamento de batatas. Entre os destaques, a GDM (Argentina) anunciou R$ 1 bilhão para cinco anos, e a Coamo planeja investir R$ 3 bilhões em um terminal portuário em Itapoá (SC), com início previsto em 2030.
Apesar da taxa básica de juros elevada (15%) e da pressão sobre crédito, especialistas avaliam que os investimentos fazem sentido no longo prazo. Felippe Serigatti ressalta que o agronegócio é um dos setores que mais se insere nas cadeias globais de valor, respondendo bem à demanda interna e externa.
O Citi aponta que o Brasil se beneficia da capacidade de expansão agrícola e do crescimento da produção de biocombustíveis. Porém, para 2026, o banco projeta uma redução nos investimentos, em função do cenário econômico desafiador, com alta alavancagem, juros elevados e margens apertadas, levando empresas a priorizar resiliência e redução de endividamento.

