Ler também é um gesto de permanência. Nesta quarta-feira (7), Dia do Leitor, celebrado em meio à primeira quinzena de janeiro, o Centro Cultural Hermes de Paula se torna cenário de um encontro delicado entre poesia, memória e público, a partir de uma exposição no Painel Permanente de Poesia Juca Silva Neto, que tem como pano de fundo um vínculo de amor profundo entre pai e filha.
Segundo Alice Melo, retornar ao painel representa uma reconexão com uma parte dela que por anos ficou adormecida: “É como voltar para casa e reencontrar a menina sonhadora que ali existia e que esteve me esperando. Sinto que hoje posso revistar esses espaços com um olhar mais maduro de saudade, mas também de acolhimento’’, diz.
A mostra apresenta o retorno dela à cena literária de Montes Claros, após oito anos de afastamento. Sua relação com os livros começou ainda na infância, quando foi levada pelos pais a eventos literários como o Psiu Poético e passou a integrar, muito cedo, o universo da poesia. Reconhecida e publicada ainda criança, ela cresceu entre leituras, escutas e palavras compartilhadas.
Em 2017, a perda do pai – seu maior incentivador no mundo das letras – interrompeu esse percurso temporariamente. O silêncio se impôs, não como ausência de poesia, mas como um tempo de recolhimento, luto e amadurecimento. Os versos continuaram existindo, guardados à espera do momento certo para serem lidos novamente.
Ela relata que o luto pela perda do pai definiu muito a sua escrita nos últimos anos: “Costumo escrever em situações em que me sinto perdida e em que as emoções atravessam o peito. Sinto que canalizei muito da dor desse processo nas minhas palavras. Quando criança, sempre que escrevia um poema, ele e a minha mãe estavam lá para ouvir, com entusiasmo e apoio. Por isso, a escrita foi o meu refúgio e o meu diálogo silencioso com o meu pai durante todo esse tempo. Percebo que minha poesia evoluiu para algo muito mais cortante e íntimo. Transformei o que era incentivo em inspiração.’’
O retorno da poeta chega agora, em forma de exposição e de um sarau aberto ao público, marcado para esta sexta-feira (9 de janeiro). A proposta é simples: devolver a palavra ao leitor, convidando-o a participar ativamente do reencontro entre poeta e voz.
Com visitação gratuita durante a primeira quinzena de janeiro, a exposição reafirma o leitor como figura central da literatura. É ele quem atravessa o silêncio, sustenta a memória e mantém viva a poesia, ainda que ela demore a voltar a ser dita. Poetas que queiram também expor no Painel Permanente, podem estar entrando em contato presencial na Biblioteca Pública Municipal Dr. Antônio Teixeira de Carvalho ou obter mais informações pelo e-mail psiupoetico@gmail.com.
