Belo Horizonte, 6 de janeiro de 2026 – Em uma iniciativa histórica para o combate à hanseníase, o Governo de Minas Gerais inicia, a partir desta terça-feira, a oferta de testes moleculares gratuitos na rede pública de saúde. Realizados pela Fundação Ezequiel Dias (Funed), vinculada à Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), os exames prometem revolucionar o diagnóstico e o acompanhamento da doença, que ainda assombra o estado com mais de mil casos anuais. A ação integra o Janeiro Roxo, campanha nacional de conscientização, e reforça a Atenção Primária à Saúde como porta de entrada para a prevenção.
O anúncio ocorre em meio a um esforço concentrado para reduzir a transmissão da hanseníase, conhecida popularmente como lepra. Historicamente estigmatizada, a doença afeta a pele e os nervos periféricos, podendo causar sequelas irreversíveis se não tratada precocemente. Em Minas Gerais, que registra índices de detecção abaixo da média nacional, a novidade chega como um avanço tecnológico aprovado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Antes, os testes eram realizados em apenas três laboratórios de referência no país, gerando demoras. Agora, o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-MG) e a Funed agilizam o processo, com capacidade para cerca de 500 exames em 2026.
Contexto histórico e o peso da doença em Minas A hanseníase acompanha a humanidade há milênios, com registros em múmias egípcias e textos bíblicos.
No Brasil, chegou com os colonizadores portugueses e se espalhou pelas populações vulneráveis, especialmente em regiões pobres e rurais. Minas Gerais, com sua vasta área territorial e desigualdades regionais, sempre foi um foco de preocupação. Dados do Ministério da Saúde revelam que o país registrou 127 mil casos entre 2001 e 2024, com Minas contribuindo com cerca de 10% desse total.
No estado, os números são alarmantes: 1.294 casos em 2024 e 1.080 em 2025, segundo a SES-MG. Apesar de uma leve queda, a taxa de detecção (9,7 casos por 100 mil habitantes em 2024) fica abaixo da média nacional (11,5). Regiões como o Norte de Minas, incluindo Montes Claros, enfrentam desafios extras devido à dispersão populacional e ao acesso limitado a serviços de saúde. Em 2025, a microrregião de Montes Claros notificou 45 casos, muitos em áreas rurais onde o estigma ainda impede buscas por atendimento.
“Minas tem histórico de subnotificação por causa do preconceito e da falta de exames precisos”, explica o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti. “São mais de mil casos por ano, e muitas pessoas convivem com a doença sem saber. O diagnóstico precoce interrompe a transmissão e evita sequelas como deformidades e incapacidades.”
Como funcionam os novos testes e seu impacto prático Os testes moleculares detectam o DNA da bactéria Mycobacterium lepra e em amostras de pele ou swab nasal, confirmando o diagnóstico clínico em horas ou dias, contra semanas anteriores. A Funed recebeu kits do Ministério da Saúde para mais de 280 exames iniciais, ampliando o suporte a contatos domiciliares de pacientes confirmados – grupo de risco que representa 20% dos novos casos em Minas.
Carmem Dolores Faria, chefe do Serviço de Doenças Bacterianas e Fúngicas da Funed, destaca a precisão: “Esses exames diferenciam formas paucibacilar e multi-bacilar da doença, guiando o tratamento. A hanseníase é complexa, com período de incubação de até 10 anos. Agora, a Funed se torna referência estadual, reduzindo o tempo de resposta de 30 para 5 dias úteis.” Em Montes Claros
