No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, a fisioterapia ganha destaque como uma intervenção indispensável. A fisioterapeuta especialista Dra. Carline Nogueira esclarece que o trabalho com o corpo é a base para habilidades que vão muito além do movimento, como a fala, a comunicação e o aprendizado acadêmico. Segundo a profissional, a fisioterapia organiza o corpo da criança e promove a consciência corporal, essencial para atividades de vida diária, como o equilíbrio necessário para ficar em uma perna só ao se vestir — o chamado apoio unipodal.
Tônus muscular está diretamente ligado ao foco de atenção Um dos pontos centrais da entrevista com a Dra. Carline é a relação entre o tônus muscular e a capacidade de concentração. Muitas pessoas autistas apresentam dificuldades de atenção que impactam o aprendizado porque possuem um tônus desregulado. A fisioterapia trabalha a força, a coordenação motora e a organização do corpo no espaço, além da lateralidade e da noção visoespacial. Esse trabalho promove uma organização neurosensorial que resulta na melhora de comportamentos inadequados e na redução de estereotipias, criando um ambiente interno mais estável para a criança aprender.
Planejamento motor é pré-requisito para o processo da fala A especialista alerta que a fala é, na verdade, um planejamento motor de “práxis fi na”. Por isso, para que a criança consiga falar, ela precisa primeiro de um corpo organizado. Dra. Carline observa que muitos pais acreditam que seus filhos não precisam de fisioterapia por já saberem andar ou correr. No entanto, muitas crianças autistas buscam o movimento constante não por habilidade motora, mas por uma busca sensorial que gera grande gasto energético e cansaço. A fisioterapia habilita funções motoras e marcos do desenvolvimento que garantem eficiência e menos esforço para a criança
Pais devem observar sinais como sentar em “W” ou ponta dos pés Diferente de outras condições onde o atraso motor é evidente, no autismo os sinais podem ser sutis ou paradoxais, como a criança andar cedo demais, pulando etapas como o engatinhar. A Dra. Carline orienta os pais a observarem se a criança é muito “molinha” ou se senta na posição de “W” (com as pernas para trás), o que indica baixo tônus postural. Outro sinal clássico é o andar na ponta dos pés. Mesmo a dificuldade de ficar sentado na cadeira da escola pode estar relacionada ao tônus cervical, necessário para manter a cabeça erguida e focar no que o professor explica.
O brincar é a ferramenta técnica para atingir objetivos terapêuticos Para a fi sioterapia infantil, o brincar não é apenas entretenimento, mas a única forma de atingir resultados clínicos. “Brincar é o trabalho da criança”, define a Dra. Carline. O terapeuta precisa conhecer o perfi l único de cada paciente — se ele se incomoda com barulhos ou se gosta de toque — para criar um vínculo afetivo e um ambiente seguro. Dentro da ludicidade, o profissional insere exercícios de integração bilateral, postura e força. Ao validar o que a criança já consegue fazer e propor pequenos desafios, a fisioterapia ajuda o autista a subir os degraus do desenvolvimento e resolver problemas de forma autônoma.
