Da tradição filantrópica à alta complexidade, instituição amplia estrutura, tecnologia e atendimento regional
Há histórias que são contadas em anos. Outras são contadas em vidas. A trajetória da Santa Casa Montes Claros, que chega aos 155 anos em 2026, pertence às duas dimensões. São 155 anos de uma instituição que nasceu para acolher os que mais precisavam e que, ao longo das gerações, acompanhou as transformações de Montes Claros, da medicina e de toda uma região, tornando-se referência em saúde para o Norte de Minas.
Tudo começou em 21 de setembro de 1871, quando, por meio da Lei nº 1.776, do Governo da Província de Minas, e por iniciativa do Dr. Carlos Versiani e do Cônego Antônio Gonçalves Chaves, foi instituída a Irmandade Nossa Senhora das Mercês da Santa Casa de Montes Claros. A instituição seria acolhida canonicamente pela Igreja Católica em 19 de janeiro de 1878, por ato de Dom João Antônio dos Santos, Bispo de Diamantina. Naquele momento, Montes Claros era uma cidade ainda jovem, com apenas 14 anos. A pequena estrutura dedicada aos mais necessitados estava longe de imaginar a dimensão que alcançaria no futuro.
OS PRIMEIROS PASSOS
A primeira sede própria foi concluída em 1877, na região onde hoje está a Praça Dr. Carlos Versiani. A construção contava com duas enfermarias, destinadas a homens e mulheres. Pouco mais de duas décadas depois, em 1903, a Santa Casa mudou-se para um novo espaço, três chalés localizados no fim da atual Avenida Coronel Prates, então denominada Avenida da Estrela.
Um dos momentos decisivos dessa primeira fase aconteceu em 1908, quando Daniel Pereira Costa destinou, por testamento, parte significativa de seu patrimônio à Santa Casa. A doação dos terrenos possibilitou a expansão da instituição e está diretamente ligada à área onde o hospital se encontra atualmente. Daniel Costa morreu em 1915, mas seu gesto permaneceu como parte fundamental da história da instituição.
Em 1947, foi inaugurado um novo prédio de dois pavimentos, voltado para a Praça Honorato Alves, consolidando mais uma etapa da expansão física da Santa Casa. A sucessão de mudanças de endereço, ampliações e novas estruturas revela uma característica que atravessa toda a história da instituição: a capacidade de crescer à medida que cresciam também as necessidades da população. A cada nova construção, uma nova resposta. A cada geração, uma nova etapa.
UMA HISTÓRIA FEITA POR PESSOAS
Nenhuma trajetória de 155 anos não seria possível sem as pessoas que dedicaram suas vidas à instituição.
Entre os nomes que se tornaram símbolos dessa história está Irmã Beata, nascida Wilhelmina Lauwen, na Holanda. Ao assumir a vida religiosa, adotou o nome de Irmã Maria Beatriz, conhecida como Irmã Beata. Chegou a Montes Claros em 1911 e dedicou-se ao atendimento dos mais pobres, realizando partos na Santa Casa e também nas casas das famílias que necessitavam de sua ajuda. Sua presença tornou-se sinônimo de fé, caridade, acolhimento e dedicação ao próximo.
Irmã Beata morreu em 1952, aos 73 anos, mas seu legado permaneceu profundamente ligado à identidade da instituição. Em 1977, por ocasião do centenário da Santa Casa, o artista plástico Konstantin Christoff criou uma escultura em sua homenagem, instalada na Praça Honorato Alves. A obra, inspirada na figura da religiosa e na imagem do colo materno, tornou-se um dos grandes símbolos da história da instituição. Outra personagem marcante foi Irmã Veerle, que dedicou cinco décadas à Santa Casa. Sua trajetória esteve especialmente ligada à área maternoinfantil e à pediatria. Assim como Irmã Beata, sua presença ficou registrada não apenas nos espaços físicos do hospital, mas principalmente na memória de pacientes, familiares e profissionais.
A história também foi construída por médicos pioneiros. Entre eles, nomes como Konstantin Christoff, Aroldo Tourinho, Jason Teixeira, Luiz Quintino, Luiz Pires, Geraldo Machado, Mário Ribeiro e tantos outros ajudaram a consolidar a medicina hospitalar na região. Décadas depois, profissionais como Dra. Maria de Jesus Santos Rametta e Dr. José Rametta também deixariam marcas profundas na instituição e na medicina do Norte de Minas. A própria história da maternidade e a organização dos primeiros plantões médicos estão ligadas à atuação de Dra. Maria de Jesus, que chegou à Santa Casa em 1963.
DE UMA CASA DE CARIDADE A UM COMPLEXO HOSPITALAR
A evolução da Santa Casa acompanhou o desenvolvimento de Montes Claros e do Norte de Minas. Novos serviços foram incorporados, especialidades médicas passaram a fazer parte da estrutura e a instituição ampliou progressivamente sua capacidade de atendimento. A relação com a formação médica também faz parte dessa trajetória. A Santa Casa foi ponto de apoio para as primeiras experiências que deram origem à Faculdade de Medicina de Montes Claros, oferecendo estrutura para atividades práticas em áreas como cirurgia, clínica médica, ortopedia e obstetrícia.
Com o passar das décadas, a instituição deixou de ser apenas um hospital local para assumir uma função regional. Hoje, sua abrangência alcança uma população estimada em cerca de dois milhões de pessoas, distribuídas pelo Norte de Minas, Vales do Jequitinhonha e Mucuri e sudoeste da Bahia. A instituição é filantrópica, sem fins lucrativos, e mantém forte atuação pelo Sistema Único de Saúde. Dados institucionais apontam mais de 1,5 milhão de atendimentos anuais. A consolidação dessa estrutura também foi acompanhada pela busca permanente por qualidade. A Santa Casa Montes Claros tornou-se a primeira Santa Casa do Brasil a receber o Selo ONA Nível III, reconhecimento associado à excelência dos processos, qualidade e segurança assistencial.
UM NOVO CAPÍTULO
Se a história de 155 anos é marcada por muitas fases de crescimento, a última década representa um capítulo particularmente expressivo. Sob a gestão do superintendente Maurício Sérgio Sousa e Silva, a Santa Casa Montes Claros passou por um intenso processo de expansão e modernização. A estratégia combina ampliação da estrutura física, fortalecimento dos serviços, investimentos em tecnologia, humanização dos ambientes e busca permanente por maior resolutividade assistencial.
O crescimento não está restrito ao tamanho da estrutura. Ele aparece na incorporação de novas tecnologias, na qualificação dos serviços, na ampliação da capacidade assistencial e na criação de novas possibilidades de atendimento. A Santa Casa chega aos 155 anos como um complexo hospitalar que reúne cerca de 500 médicos e mais de 2.500 colaboradores, formando uma grande rede de profissionais dedicada à assistência. É nesse período que a instituição fortalece áreas estratégicas e amplia sua capacidade de oferecer procedimentos de média e alta complexidade. A oncologia, a terapia intensiva, a cardiologia, a neurologia, a cirurgia, a nefrologia, os transplantes e tantas outras áreas passam a integrar uma estrutura cada vez mais ampla e tecnológica.
A transformação da Santa Casa Montes Claros também pode ser percebida na dimensão das melhorias realizadas em sua infraestrutura. Ao longo dos últimos anos, foram promovidas intervenções em diferentes áreas, ampliando, modernizando e humanizando os espaços destinados ao atendimento e ao trabalho. Entre elas, estão a substituição do equipamento de ressonância magnética, a ampla reforma do setor de Endoscopia, com equipamentos de ponta e estrutura renovada, além da reforma das enfermarias e dos quartos destinados aos pacientes do SUS por meio do projeto Amigos da Santa Casa. Também estão em andamento as reformas dos apartamentos das unidades de convênios e particulares.
O processo de modernização alcançou ainda o Pavilhão Dom José, o Pavilhão Daniel Costa, a Oncologia, o Pronto Atendimento, o Centro de Material e Esterilização (CME), o Serviço de Nutrição e Dietética (SND), o prédio administrativo e a sala destinada aos colaboradores. A instituição também implantou novos Centros de Terapia Intensiva (CTIs), elevadores e promoveu a reforma da Capela, além da revitalização das fachadas.
São intervenções que, muitas vezes, acontecem de forma silenciosa, mas que representam uma mudança profunda na estrutura hospitalar. Cada obra, reforma, equipamento e novo espaço integra um movimento contínuo de modernização, com o objetivo de oferecer melhores condições de atendimento aos pacientes e de trabalho aos profissionais. Ao mesmo tempo, a Santa Casa Montes Claros avança em novos projetos, entre eles a construção, em parceria com a Fundação Sara, do Hospital de Câncer Infantil, ampliando ainda mais sua atuação e sua capacidade de cuidar.
HUMANIZAR TAMBÉM É EVOLUIR
A modernização promovida nos últimos anos não se resume a equipamentos. Ela também alcança os ambientes onde pacientes, familiares e profissionais vivem diariamente suas experiências de cuidado.
Em 2025, por exemplo, a instituição entregou a reforma do Pronto Socorro Padre Janjão, com modernização e humanização do espaço. A unidade é referência para dezenas de municípios e registra aproximadamente 29 mil atendimentos por ano, incluindo atendimentos adultos, pediátricos, traumas e casos de AVC. A obra trouxe um ambiente mais acolhedor e melhores condições para pacientes, acompanhantes e equipes.
Em 2026, a agenda de transformação continuou com a reforma e humanização da Enfermaria São Vicente de Paulo, reforçando a preocupação da instituição em qualificar não apenas os processos assistenciais, mas também a experiência de quem passa pelo hospital. O mesmo conceito esteve presente na humanização do Pronto Atendimento Pediátrico, cuja estrutura foi retomada para atendimento 24 horas ao público infantil. O serviço, reativado em maio de 2026, ampliou as possibilidades de atendimento às crianças, somando-se à estrutura pediátrica SUS já mantida pela instituição.
TECNOLOGIA QUE AMPLIA POSSIBILIDADES
A evolução tecnológica tornou-se uma das marcas mais visíveis dessa nova fase. A Santa Casa vem ampliando sua capacidade diagnóstica e terapêutica com investimentos em equipamentos de alta complexidade. Um dos exemplos mais recentes está na Hemodinâmica, área que recebeu novos equipamentos e passou por obras de ampliação e modernização.
O segundo equipamento de hemodinâmica, um Philips Azurion 5, representou investimento estimado em R$ 3,4 milhões com recursos próprios da instituição. A tecnologia reúne recursos avançados de imagem e ferramentas como IntraSight, iFR/FFR e IVUS, ampliando as possibilidades para procedimentos cardiovasculares, neurológicos e vasculares de alta complexidade. O primeiro equipamento havia sido recebido em 2025, e a chegada da segunda unidade permitiu a expansão da capacidade do setor.
Em 2026, a instituição também avançou na ampliação e modernização do setor de Hemodinâmica, consolidando uma estrutura preparada para acompanhar a evolução dos procedimentos intervencionistas. Mas tecnologia, para a Santa Casa, não é um fim em si mesma. Ela representa a possibilidade de oferecer diagnósticos mais precisos, procedimentos mais seguros, tratamentos mais modernos e, principalmente, ampliar as oportunidades de cuidado para pacientes que dependem de uma estrutura de referência regional.
A SAÚDE CHEGA MAIS PERTO
Outro movimento importante da atual gestão é a expansão para além da estrutura hospitalar tradicional. A inauguração de uma nova unidade da Clínica Vida Saúde na Vila Regina ampliou a presença da instituição na rede assistencial. A unidade foi estruturada para atender demandas encaminhadas pelo município, com foco em gestação de alto risco e exames cardiológicos e de imagem pelo SUS, reunindo atendimento multidisciplinar, especialidades médicas e equipamentos modernos.
A expansão também ganhou uma nova frente com o Cartão Saúde Santa Casa, lançado em 2025 em parceria com gestores e empresários. A iniciativa foi criada para ampliar o acesso a serviços de saúde com condições diferenciadas, conectando pacientes a consultas, exames, procedimentos e à estrutura assistencial da Santa Casa e de parceiros. A proposta amplia o alcance da instituição e cria novas possibilidades de relacionamento com a população, sem abandonar sua tradição filantrópica e seu compromisso com o SUS.
UM HOSPITAL QUE TAMBÉM FORMA
A trajetória da Santa Casa sempre esteve relacionada ao conhecimento e à formação de profissionais. Agora, essa relação ganha uma nova dimensão. A instituição avança na implantação da Faculdade Santa Casa Montes Claros, estruturando uma nova frente de atuação dedicada à educação na área da saúde. A proposta aproxima ainda mais assistência, ensino, pesquisa e formação profissional.
A criação da faculdade representa uma mudança estratégica: além de cuidar de quem precisa de assistência, a instituição passa a ampliar sua participação na formação de quem estará responsável pelo cuidado das próximas gerações. A estrutura destinada ao projeto vem sendo preparada com espaços e recursos tecnológicos para sustentar essa nova etapa. Assim, a Santa Casa passa a trabalhar de forma cada vez mais integrada em duas grandes frentes: saúde e educação.
UM NOVO HOSPITAL PARA UM NOVO TEMPO
A chegada aos 155 anos também é marcada por um projeto que sintetiza a visão de futuro da atual gestão: a expansão vertical da estrutura hospitalar. O projeto das duas novas torres, que receberão os nomes de Torre Irmã Beata e Torre Irmã Veerle, representa a perspectiva de uma nova etapa para o complexo hospitalar.
Entre os principais destaques está a implantação de um novo Pronto Socorro, previsto para ocupar o segundo pavimento de uma das torres, com capacidade projetada para 50 leitos, ampliando significativamente a estrutura atualmente disponível. O projeto também prevê um edifício de 16 andares e heliponto, concebidos para fortalecer a resposta da instituição às demandas de urgência e emergência.
A proposta nasce de uma necessidade concreta. O atual Pronto Socorro é porta aberta 24 horas e referência para toda a região, mas a demanda ultrapassa a capacidade física instalada. A nova estrutura pretende separar fluxos, ampliar leitos e proporcionar mais agilidade, segurança e humanização ao atendimento. Mais do que uma obra, as torres representam uma escolha: preparar hoje a Santa Casa que será necessária amanhã.
O FUTURO JÁ COMEÇOU
Em 155 anos, a Santa Casa Montes Claros mudou de endereço, ampliou seus prédios, incorporou especialidades, recebeu gerações de médicos, enfermeiros e profissionais da saúde, atravessou diferentes momentos da história e acompanhou profundas transformações da medicina.
Mas existe algo que permaneceu: a essência de cuidar.
Foi essa essência que esteve presente nas mãos das Irmãs que acolhiam os mais necessitados. Esteve no trabalho dos médicos pioneiros. Esteve na dedicação de Irmã Beata e Irmã Veerle. Esteve nos profissionais que atravessaram décadas de serviço. Esteve nos que enfrentaram a pandemia. E permanece hoje nos mais de 2.500 colaboradores, no corpo clínico, nos gestores, parceiros e voluntários que fazem a instituição funcionar todos os dias.
É essa continuidade que permite compreender a atual gestão não como um ponto isolado da história, mas como mais um capítulo de uma construção iniciada há 155 anos. Sob a condução de Maurício Sérgio Sousa e Silva, a Santa Casa Montes Claros chega a este marco combinando tradição e transformação: amplia sua estrutura, incorpora tecnologia, humaniza seus espaços, cria novas possibilidades de acesso, fortalece a educação e projeta um hospital ainda maior para o futuro.
A história iniciada em 1871 continua sendo escrita. E talvez essa seja a maior marca dos 155 anos: a Santa Casa não celebra apenas aquilo que já construiu. Celebra também a capacidade de continuar construindo. Porque uma instituição que nasceu para cuidar precisa estar preparada para cada novo tempo.
“O passado nos trouxe até aqui. O presente nos desafia. E o futuro já começou a ser construído”, Maurício Sérgio Sousa e Silva, superintendente da Santa Casa Montes Claros.