A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a integrar a rotina do agronegócio brasileiro. Atualmente, 41,9% das fazendas e agroindústrias do país utilizam alguma solução baseada em IA, mais que o dobro dos 16,9% registrados em 2022, segundo dados divulgados pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
O crescimento revela uma mudança acelerada na forma como o setor administra propriedades, monitora lavouras e toma decisões. Ao mesmo tempo, mostra que ainda existe amplo espaço para expansão, já que quase seis em cada dez estabelecimentos rurais e agroindustriais não incorporaram essas ferramentas.
Mais do que substituir o conhecimento humano, a tecnologia tende a ampliar a capacidade de análise de quem conhece o campo. Produtores experientes podem assumir papel central nessa transformação ao combinar décadas de observação das lavouras com sistemas capazes de organizar grandes volumes de informações em poucos minutos.
IA Na avaliação da engenheira-agrônoma e consultora Mirian Xavier, a inteligência artificial potencializa a experiência acumulada pelo agricultor. Quanto maior o conhecimento sobre a cultura, a propriedade e o mercado, melhores tendem a ser as perguntas feitas às ferramentas digitais e a interpretação das respostas produzidas.
“A inteligência artificial não elimina a experiência do produtor, ela potencializa essa experiência. Quem conhece profundamente uma cultura consegue fazer perguntas melhores, interpretar melhor os dados e transformar a informação gerada pela IA em uma decisão mais precisa”, afirma.
A especialista destaca que a tecnologia pode ser recente, mas a base de uma boa decisão continua sendo construída no campo. A avaliação humana permanece indispensável para considerar fatores que nem sempre aparecem isoladamente nos dados, como histórico da área, características regionais, comportamento das plantas e particularidades de cada sistema produtivo.
As aplicações da inteligência artificial no campo vão desde soluções altamente sofisticadas até ferramentas acessíveis para pequenas e médias propriedades. Entre as tecnologias que já avançam no agronegócio estão tratores autônomos, drones inteligentes, pulverizadores capazes de reconhecer alvos e sistemas de imagem que analisam plantas individualmente. Essas soluções permitem identificar falhas, doenças, pragas e necessidades nutricionais com maior precisão.
Ao reconhecer exatamente onde existe um problema, o equipamento pode direcionar a aplicação de defensivos, fertilizantes ou outros insumos apenas para os pontos necessários. A estratégia reduz desperdícios, melhora a eficiência operacional e pode diminuir os impactos ambientais da atividade.
A inteligência artificial também pode ser utilizada para:
A gestão representa um dos caminhos mais acessíveis para a adoção da inteligência artificial nas propriedades rurais. Planilhas, anotações, registros de campo e informações financeiras podem ser consolidados em sistemas capazes de produzir análises mais rápidas e abrangentes.
A pesquisa Global Farmer Insights 2024, realizada pela McKinsey com produtores de diferentes regiões do mundo, mostra que o Brasil avançou no uso de tecnologias agrícolas, especialmente entre as propriedades de maior porte. O levantamento ouviu aproximadamente 4.400 agricultores, incluindo 750 produtores brasileiros.
Apesar do crescimento, a adoção de softwares integrados ainda enfrenta obstáculos, como conectividade limitada nas áreas rurais, custos de implantação, necessidade de capacitação e permanência de processos informais baseados em cadernos ou planilhas isoladas.
Por outro lado, a ampla presença dos smartphones no campo favorece o desenvolvimento de ferramentas mais simples, intuitivas e adaptadas à realidade do produtor.
“A IA aplicada à gestão pode ser utilizada em qualquer tamanho de empresa. Há várias ferramentas disponíveis de acordo com a necessidade de cada produtor”, explica Mirian.
Tecnologia reduz tempo de análise e melhora decisões
Um dos principais benefícios da inteligência artificial é a capacidade de processar rapidamente grandes volumes de dados. Informações que exigiriam dias de trabalho podem ser organizadas e analisadas em minutos.
Com os dados estruturados, o agricultor pode elaborar cronogramas mais detalhados, identificar gargalos, acompanhar a evolução das lavouras e construir um banco de informações sobre cada ciclo produtivo.
A tecnologia também facilita a comparação entre períodos, áreas cultivadas, variedades e estratégias de manejo. Dessa maneira, o produtor consegue avaliar quais decisões proporcionaram melhores resultados e quais procedimentos precisam ser ajustados.
A decisão final, entretanto, continua sob responsabilidade humana. A IA funciona como instrumento de apoio, e não como substituta do conhecimento agronômico, da análise econômica ou da experiência.