Imóvel público acumula degradação e reacende debate sobre memória e juventude
Um prédio que já foi ponto de encontro, mobilização e organização da juventude de Montes Claros permanece fechado e em situação de abandono há mais de 15 anos. Localizado na Rua dos Estudantes, nº 117, na Vila Santa Maria, área nobre da cidade, fundos da Escola Estadual Professor Plínio Ribeiro (Escola Normal Oficial), o antigo prédio do Diretório dos Estudantes de Montes Claros (DEMC), pertencente ao patrimônio público municipal, tornou-se motivo de reclamações entre moradores do entorno.
Sujeira, degradação da estrutura e a sensação de insegurança associada ao imóvel desocupado estão entre as preocupações apontadas pela comunidade. A situação também reacende uma questão sobre a destinação de um patrimônio que carrega parte da história social e política da cidade.
Trata-se de um prato cheio para prática de crimes, orgias, uso de drogas e esconderijo de marginais, pois existem lotes vagos por perto da Superintendência Regional de Saúde (SRS), na lateral com a Rua Corrêa Machado, no limite do Bairro Cândida Câmara.
O DEMC teve participação em importantes mobilizações estudantis ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980. Segundo registros históricos relacionados à entidade, estudantes participaram de movimentos em defesa da democracia, da educação pública, de direitos estudantis, do transporte e de outras pautas que mobilizaram a juventude norte-mineira durante períodos de forte tensão política no país.
O endereço, portanto, representa mais do que uma construção. É parte da memória de gerações de estudantes que utilizaram a organização estudantil como instrumento de participação social e formação de lideranças.
Hoje, diante do abandono, surge uma pergunta inevitável: por que um patrimônio público com esse significado permanece sem utilização?
A recuperação do imóvel poderia abrir espaço para uma nova função social. Um projeto de revitalização poderia reunir centro de memória do movimento estudantil, orientação profissional, apoio acadêmico, capacitação para o primeiro emprego, inclusão digital, atividades culturais, esporte e formação cidadã.
Também poderia funcionar como ponto de apoio para grêmios escolares, iniciativas comunitárias e projetos destinados à juventude.
A discussão ganha importância diante dos desafios enfrentados atualmente pelos jovens, como dificuldades de inserção no mercado de trabalho, evasão escolar, falta de oportunidades de formação e necessidade de espaços de convivência e participação social.
Preservar o antigo DEMC não significa apenas recuperar paredes, portas e janelas. Significa decidir o que Montes Claros deseja fazer com uma parte de sua própria memória.
O poder público, portanto, tem diante de si uma oportunidade: transformar um imóvel hoje associado ao abandono em um equipamento voltado à memória, cultura, educação e futuro da juventude.
A comunidade da Vila Santa Maria espera respostas sobre a situação do prédio, sua conservação e sua destinação. E a cidade espera saber se aquele endereço que um dia ajudou a formar jovens lideranças continuará como lembrança de um passado de mobilização ou poderá voltar a cumprir uma função pública no presente.