A disputa pelo eleitorado evangélico ganhou espaço na campanha presidencial de 2026 à medida que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se consolidam como os principais nomes da corrida ao Palácio do Planalto. De um lado, a primeira-dama Janja da Silva passou a investir em uma aproximação direta com mulheres evangélicas, sobretudo as de baixa renda e que enfrentam situações de violência. Do outro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), que construiu ao longo dos últimos anos uma relação estreita com igrejas e lideranças cristãs, voltou a atuar ao lado de Flávio depois do período de tensão entre eles.
O movimento ocorre sobre uma base eleitoral numerosa. Segundo o Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 26,9% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam evangélicos. São cerca de 47,4 milhões de pessoas. O grupo cresceu 5,2 pontos percentuais desde 2010, quando representava 21,6% da população nessa faixa etária. No mesmo período, a proporção de católicos caiu de 65,1% para 56,7%.
A mudança, porém, não significa apenas crescimento numérico. Os dados mostram que o Brasil atravessa uma transformação no perfil religioso. Embora os católicos continuem sendo maioria em todas as regiões, a presença evangélica é mais expressiva em algumas áreas do país. No Norte, representam 36,8% da população com 10 anos ou mais. No Centro-Oeste, são 31,4%. No Sudeste, chegam a 28%. No Sul, correspondem a 23,7% e, no Nordeste, a 22,5%.
O tamanho e a distribuição desse eleitorado fazem com que a religião esteja cada vez mais presente nos cálculos eleitorais. Na pesquisa Datafolha divulgada sexta-feira, Flávio aparece com ampla vantagem sobre Lula entre os evangélicos em um eventual segundo turno: 62% a 29%, respectivamente.
É nesse cenário que Janja passou a ocupar um espaço na estratégia de comunicação de Lula. No lançamento oficial da campanha à reeleição, em 16 de agosto, em São Bernardo do Campo (SP), ela homenageou Marisa Letícia e, na sequência, chamou ao palco o pastor e cantor gospel Kleber Lucas. Os dois cantaram juntos um jingle da campanha. A participação foi apresentada como uma surpresa para Lula e serviu, também, como aceno a mulheres e evangélicos.
Uma fonte próxima à primeira-dama revelou, sob reserva, que o objetivo não é fazer com que Janja “vire evangélica”. Segundo a fonte, o foco é estabelecer uma aproximação com o eleitorado evangélico feminino, especialmente mulheres mais pobres que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência. “A estratégia seria mais social do que religiosa”, frisa.
A avaliação coincide, em parte, com a explicação dada pelo vice-líder do governo Lula na Câmara, deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSol-RJ), que defende a iniciativa. Para ele, a aproximação de Janja não começou com a campanha e deve ser construída por meio de conversas com evangélicas sobre temas como emprego, renda, violência, assistência social, trabalho e sobrecarga doméstica.
“Ela vem fazendo uma roda de conversa com evangélicas há pelo menos um ou dois anos. Portanto, não é uma aproximação eleitoral, porque sequer ela começou no ano eleitoral”, afirmou Vieira ao Correio. Na avaliação dele, a estratégia deve continuar concentrada na vida cotidiana das mulheres, sem transformar igrejas e púlpitos em palanques.
O deputado também rejeita a ideia de que o objetivo seja transformar os evangélicos em eleitores lulistas. “Meu objetivo não é que a igreja se torne lulista”, afirmou. Segundo Vieira, a intenção é garantir que fiéis possam votar livremente, sem pressão de políticos dentro dos cultos. Para ele, existe uma parcela relevante de evangélicos que não se identifica com o bolsonarismo.