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Do sufrágio ao poder: a resiliente ascensão feminina no legislativo de Montes Claros

Hoje, embora ocupem um recorde histórico de cinco cadeiras no Legislativo, a bancada feminina ainda enfrenta desafios estruturais

Mulheres são maioria nas urnas, mas minoria na Câmara de Montes Claros

Neste 24 de fevereiro, o Brasil celebra os 94 anos do Código Eleitoral de 1932: o marco jurídico que finalmente reconheceu o direito ao sufrágio feminino. Contudo, em Montes Claros, a data não deve ser apenas de festa, mas de um incômodo necessário. Quase um século após a conquista do voto, o cenário político local ainda é um espelho distorcido da realidade demográfica: mulheres são a maioria das votantes, mas seguem como exceção nas cadeiras de poder.

O paradoxo da maioria silenciosa

Em Montes Claros, o eleitorado é indiscutivelmente feminino: 54% das 277.710 urnas aptas em 2024 pertencem a mulheres, superando a média nacional de 52,4%. São 150 mil vozes femininas ao lado de 127 mil masculinas. No entanto, a representatividade na Câmara Municipal permanece estagnada em patamares que não refletem essa força. Na legislatura 2025-2028, elas ocupam apenas 5 das 23 cadeiras.

Por que o voto da mulher ainda não se traduz em mais rostos femininos no Parlamento? A resposta reside em um sistema desenhado para a exclusão: subfinanciamento crônico (mulheres chegam a receber 70% menos recursos), violência política de gênero e a herança cultural que empurra as mulheres para os ambientes domésticos, enquanto mantém os homens nos espaços de poder.


A galeria das pioneiras: 14 trajetórias de ruptura (1982-2028)

Ao longo da história, apenas 14 mulheres conseguiram romper o cerco do poder em Montes Claros. Cada uma delas construiu um legado que vai desde à educação à defesa contra a violência doméstica.

  1. Maria Aparecida Bispo de Moura (MDB, 1982-1988): A pioneira absoluta. Professora negra e pobre, desafiou as elites ao criar o Bloco Independente contra o Código Tributário e pautar a inclusão social em plena transição democrática.
  2. Marlene Tavares Cardoso (PTB, 1989-1992): A “Vereadora da Educação”. Sua passagem pela Secretaria de Educação e sua atuação na Lei Orgânica foram fundamentais para a estrutura pública municipal.
  3. Kátia Maria dos Santos Oliveira (PPB, 1998-2000): Educadora que, mesmo na suplência, manteve o foco no esporte como ferramenta de transformação.
  4. Maria Socorro de Carvalho Silveira (PFL, 2000): Odontóloga e jurista, trouxe o rigor técnico e a liderança partidária para o Legislativo.
  5. Maria Helena de Quadros Lopes (MDB/PPL, 2000-2028): Uma força da natureza política com quatro mandatos. Foi a pioneira na institucionalização da luta contra a violência doméstica no município.
  6. Maria de Fátima Pereira Macedo (2001-2008): Pedagoga e voz ativa na Comissão de Educação; detentora da Medalha de Mérito Educacional.
  7. Rita Cristina de Souza Vieira (2009-2012): Rompeu barreiras internas ao ocupar a vice-presidência da Mesa Diretora, vinda de uma sólida base de 1.639 votos.
  8. Marly das Graças Alves — “Marly do Povo” (2013-2016): Ativista de base no bairro Santos Reis, provou que a política se faz na luta por saúde e dignidade comunitária.
  9. Maria das Graças Correa de Souza — “Graça do PSF” (PT, 2014): Enfermeira que personificou a defesa da saúde básica no plenário.
  10. Delcineia Santos Silva — “Néia do Criança Feliz” (PSDC, 2017-2020): Pedagoga, consolidou a representatividade evangélica e o foco na primeira infância.
  11. Maria das Graças Gonçalves Dias — “Graça da Casa do Motor” (União, 2017-2028): Empresária rural reeleita com 4.065 votos, atualmente vice-presidente da Mesa, unindo força econômica e trânsito político.
  12. Cecília Meireles Ferreira — “Ceci Protetora” (PRD, 2021-2028): A voz das causas animais e sanitárias, representando a renovação geracional.
  13. Iara de Fátima Pimentel Veloso — “Professora Iara” (PT, 2021-2028): Geógrafa e sindicalista (Sind-Educamoc), é a face da resistência em pautas de moradia, meio ambiente e educação pública.
  14. Carol Figueiredo (PL, 2025-2028): A nova integrante da 20ª legislatura, cujo voto foi decisivo para alcançarmos o recorde (ainda insuficiente) de cinco mulheres na Casa.

União como estratégia de poder

O diagnóstico é claro: a fragmentação partidária e a falta de união estratégica entre as candidaturas femininas diluem o potencial do voto feminino. Para 2028, a meta é a paridade, mas o caminho exige mais que cotas de papel, exige sororidade partidária.

A criação da Frente Parlamentar da Mulher e as futuras conferências municipais em 2025 são passos vitais. Mas fica a provocação para o ano eleitoral de 2026: o Norte de Minas continuará aceitando apenas uma voz feminina na Assembleia Legislativa (ALMG) e nenhuma na Câmara dos Deputados?

As mulheres de Montes Claros não são apenas eleitoras; são as protagonistas da economia, da educação e do cuidado. É tempo de converter essa força demográfica em poder real.

Compromisso com a voz feminina

O Novo Jornal de Notícias reafirma sua postura de vanguarda. Mais do que registrar a história, este veículo se coloca como uma plataforma aberta para as demandas e pautas das mulheres nortistas. Em um cenário onde a sororidade política ainda busca consolidação, a imprensa assume o papel de amplificar vozes que, por muito tempo, foram mantidas à margem do poder.

Hoje, embora ocupem um recorde histórico de cinco cadeiras no Legislativo, a bancada feminina ainda enfrenta desafios estruturais

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