Festival de Arte Contemporânea montesclarense celebra quarenta anos de resistência
Em 1987, enquanto o Brasil ainda tateava os primeiros passos da redemocratização, um grito — ou melhor, um “psiu” — rompeu o silêncio do Norte de Minas. O que começou como um encontro de poetas transformou-se no festival de poesia mais longevo do país. Quatro décadas depois, o evento idealizado pelo poeta norte-mineiro Aroldo Pereira e o grupo Transa Poética não é apenas um marco no calendário mas sim uma entidade viva que transformou Montes Claros no epicentro de uma vanguarda apaixonada.
Para o seu idealizador, o festival é uma transformação diária, que caminha junto com as mudanças naturais da linguagem. Sentado para conversar sobre essa trajetória, ele não fala em tom de retrospectiva museológica ou com um saudosismo melancólico, mas com a urgência de quem sabe que a poesia muito embora não dialogue diretamente com nossa existência mais pragmática, é o antídoto para a pulsação de muitas dores, inclusive a dor provocada pela era digital.
A geometria da inversão: do Sertão para o Mundo
O Psiu Poético operou uma espécie de “milagre geográfico” que desafiou a centralização da arte contemporânea nas capitais. Durante décadas, a vanguarda artística brasileira parecia ter CEP fixo no eixo Rio-São Paulo. Aroldo e seus parceiros inverteram a lógica. Inspirado também pelo gesto modernista de Oscar Niemeyer, que levou as curvas concretistas ao Planalto Central, o poeta trouxe ao sertão mineiro uma realização poética.
“Nós fizemos a inversão. Sempre foi a ditadura do eixo Rio-São Paulo. Se a gente se entregasse ao que é oficial, ao olhar alheio, a gente não viveria. A gente faz mesmo sem ter recurso”, desabafa Aroldo.
Essa resistência atraiu olhares internacionais. Pelo solo mineiro já passaram artistas da Alemanha, Japão, Argentina e Uruguai. Mas ainda com essa volta ao mundo, o DNA do Psiu Poético ainda tem os pés bem fincados em sua terra de nascimento. Nomes como Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro são citados por Aroldo não como estátuas, mas como companheiros que ajudaram a fazer de Montes Claros e do Norte de Minas uma referência no campo artístico do Brasil.
A arte do afeto
Manter um festival por 40 anos sem se render às burocracias das academias ou ao engessamento político é uma tarefa de guerrilha. Aroldo é categórico: o festival sobrevive pelo afeto. Quando o apoio público mingua — e ele frequentemente mingua —, são as famílias de Montes Claros que abrem suas portas, hospedando artistas em seus quartos vagos, transformando a cidade em uma grande residência artística coletiva.
O festival dialoga com tudo: poesia, cinema, teatro, dança, sexualidade, artes plásticas. Para Aroldo, a proposta do Psiu Poético é uma ferramenta que vai além do simples deleite artístico. É um combate direto à depressão e ao isolamento do século XXI ‘’É um projeto que provoca, que faz a pessoa pensar, que faz a pessoa agir e buscar a saúde, mesmo com tanta depressão que assola o mundo. Porque cada vez mais essa pulsação da internet traz uma dor para o cidadão, tenha ele quatro, quarenta ou dezesseis anos.’’ diz o poeta.
O futuro: do papel ao filme, de Montes Claros a BEAGÁ
Aos 40 anos, o Psiu Poético não pensa em aposentadoria e mira o futuro. Para eternizar essa celebração da poesia, um documentário já está em fase de captação de recursos para registrar todos esses anos de invenção.
Além do filme, Aroldo ainda alimenta outros sonhos. O poeta persegue o desejo de um espaço físico permanente em Montes Claros, que funcione como um centro de discussão e criação durante todo o ano. ‘’A gente sempre desejou ter um espaço específico para o projeto acontecer forma regular. A ideia é ter intervenções bacanas com poesia, projeções, discussões, palestras e até hoje não conseguimos.’’
Mesmo sem o cenário ideal, a poesia não deixa de acontecer. O projeto agora estende seus tentáculos para a capital mineira: o “8º Beagá Psiu Poético 2026” inclusive, já recebe inscrições. Os artistas poderão se inscrever até 28 de fevereiro através do endereço eletrônico beagapsiupoetico@gmail.com. O festival, que terá entrada franca, será realizado de 19 a 22 de março de 2026.
Psiu poético: um movimento histórico
Ao ser questionado sobre o que um historiador do futuro dirá sobre o festival, Aroldo evoca nomes como Mirna Mendes, Renilson Duranes e o saudoso Gabriel Cardoso. O veredito, para ele, é claro: o Psiu Poético é a prova de que a alma cultural brasileira não se limita às cadeiras de uma academia. ‘’A minha inquietação é maior para criar, para fazer e para que os outros estejam fazendo juntos. Porque a academia é limitada, tem 40 lugares, tem que ficar ali.’’, ressalta Aroldo, reafirmando seu compromisso com o movimento permanente.
O Psiu Poético chega aos 40 anos como um monumento de grande beleza. Enquanto houver saúde e palavra, o poeta garante: a invenção continuará sendo o único chamado possível. Chamado esse, que o sertão de Aroldo Pereira jamais deixará de escutar.