O filho Álvaro Vicente revela bastidores do pai em obra literária
JULIANA MAGALHÃES
A história de Montes Claros não pode ser contada sem as ondas do rádio, e as ondas do rádio norte-mineiro não existiriam da mesma forma sem a presença de Zé Vicente, que já acumula 82 anos de vida e experiências históricas. O lançamento da obra biográfica “O homem do an, an!’’ escrita por seu filho, Álvaro Vicente, traz à tona a trajetória de um homem que desafiou as definições tradicionais de “político” e “comunicador”, consolidando-se como um patrimônio vivo da cultura sertaneja e um gestor movido pela sensibilidade.
Diferente das figuras públicas formadas em articulações de bastidores ou cálculos eleitorais frios, Zé Vicente chegou à vida pública por uma via mais orgânica: a comunicação direta. No rádio, ele não era apenas um locutor, era um mediador de realidades. Seu microfone servia, acima de tudo, para dar voz às comunidades mais distantes e para quem não tinha espaço nos centros de poder.
Essa postura assistencial e o dom de ouvir transformaram o radialista em uma referência de confiança. Segundo Álvaro, quando a política institucional bateu à sua porta, ela veio como uma consequência natural de décadas de serviço prestado no ar. Mesmo como prefeito da maior cidade do Norte de Minas, Zé Vicente manteve a essência do apresentador: alguém que empresta o ouvido antes de tomar a palavra. Ele também foi prefeito, vice-prefeito, na gestão do então prefeito Ruy Muniz e antes vereador.
ALMA DO ARTISTA
Antes de ser prefeito ou radialista, Zé Vicente é artista. Cantor, poeta e repentista, ele trouxe para a administração pública a agilidade de raciocínio e o equilíbrio próprios do repente. O improviso ensinou-lhe que governar é, em muitos aspectos, buscar a harmonia entre vozes dissonantes. “Um artista já carrega na alma a sensibilidade de quem precisa dialogar com o outro, sentir a plateia, perceber o tempo da palavra e o peso do silêncio. No caso do meu pai, essa vivência artística — como poeta, cantor e repentista — moldou profundamente a forma como ele lidava com pessoas, conflitos e decisões’’, ressalta Álvaro, que é advogado, também artista e cantor.
Essa faceta artística e sensível foi decisiva em momentos cruciais de sua gestão. Um dos episódios mais marcantes narrados no livro é o projeto de tombamento da Serra do Mel e do Morro Dois Irmãos. Em um cenário de pressão entre o progresso urbano e a preservação, o olhar do poeta-natureza prevaleceu. Para Zé Vicente, o patrimônio ambiental da cidade era uma extensão da poesia que ele cantava, e sua proteção tornou-se uma missão pessoal e política.
LIVRO
Escrito por quem testemunhou os bastidores dessa trajetória desde a infância, o livro abre mão do rigor cronológico das biografias didáticas para priorizar a honestidade do relato humano. Álvaro Vicente, autor da obra, entrega uma narrativa dinâmica e afetiva que faz jus aos mais de 60 anos de carreira do pai, equilibrando a responsabilidade do registro histórico com o olhar sensível de filho.
A obra revela um Zé Vicente que vai muito além da figura pública: o leitor encontrará o empreendedor cultural que “abriu o microfone” para que talentos anônimos pudessem brilhar, o compositor de alma sertaneja e o homem de família. Mais do que um pedestal para si mesmo, Zé Vicente é retratado como um palco para os outros, um gestor que, mesmo no ponto mais alto da vida pública, nunca deixou de ser povo.
O lançamento da biografia será realizado no dia 2 de fevereiro (segunda-feira), às 19h30, no Centro Cultural Hermes de Paula (CCHP), na Praça da Matriz, em Montes Claros. O evento promete ser mais do que uma noite de autógrafos. É um convite para a cidade se reencontrar com sua própria história através de uma de suas vozes mais emblemáticas. É o registro definitivo de uma vida que transformou a simplicidade em ferramenta de transformação social e fez da palavra o seu maior instrumento de união.