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Quando migrar é sobreviver: História de uma venezuelana

Relato de Asya Jimenez expõe impactos e dificuldades da imigração

A crise humanitária enfrentada pela Venezuela nos últimos anos forçou milhões de cidadãos a deixarem o país com suas famílias em busca de condições mínimas de sobrevivência. Entre eles está Asya Jimenez, venezuelana de 33 anos de idade, que atuou como professora por mais de uma década em seu país de origem e atualmente é residente no Brasil – em Montes Claros – há quase sete anos.

Segundo ela, a decisão de migrar não foi motivada por um desejo de conhecer outro país, mas pela impossibilidade de continuar vivendo na Venezuela em meio a uma crise que para além de política, era humanitária: “Ninguém sai do país porque quer. A crise que a Venezuela está vivendo não é uma crise normal. É uma crise muito forte. Então a crise, a falta de insumos, me fez tomar a decisão de sair do país”, relata. Sem um destino definido inicialmente, o Brasil surgiu como alternativa após indicações de conhecidos e vizinhos que comentaram sobre o país.

A CHEGADA AO BRASIL

Ao chegar ao País, Asya e sua família foram acolhidos pela Operação Acolhida, iniciativa do governo brasileiro com apoio do Exército, da Organização das Nações Unidas (ONU) e de organizações humanitárias. Ela destaca que, ao contrário do que imaginava, as maiores dificuldades não vieram do Brasil, mas dos traumas trazidos pela experiência vivida na Venezuela: “O desafio foi vencer o medo, a insegurança e tudo o que a gente carregava por dentro”, afirma.

A adaptação ao idioma foi um dos primeiros obstáculos. Sem qualquer conhecimento prévio do português, encontrou uma solução simples: assistir a desenhos infantis junto com os filhos. O processo de integração, no entanto, foi mais complexo para as crianças, que precisaram de acompanhamento psicológico para lidar com a mudança cultural, escolar e linguística.

No mercado de trabalho, explica que precisou priorizar os cuidados com os filhos, que passaram por investigações médicas e terapias. Mesmo assim, afirma ter encontrado oportunidades e acredita que o acolhimento recebido no Brasil será fundamental quando retomar a vida profissional.

COLABORAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA

O apoio institucional foi decisivo durante o processo migratório. Enquanto estava no abrigo, Asya ressalta o papel da Igreja Católica, especialmente dos Jesuítas, que ofereceram cursos, auxílio financeiro, cestas básicas, apoio psicológico e participaram do processo de interiorização da família. Contudo, destaca que a tríade ONU, Exército e igreja católica desempenharam um papel mais que fundamental para que ela pudesse encarar de frente as dificuldades dessa jornada.

Para a venezuelana, a imigração transformou profundamente sua vida pessoal e familiar: “Foi a maior escola que eu tive. Cresci como mulher, mãe e ser humano. Eu tive que soltar um país, me despedir dos pais e viver a maternidade praticamente sem rede de apoio”, diz. Longe da família, precisou reconstruir sua identidade em um novo país, ao mesmo tempo em que lidava com o luto pela distância dos pais e da terra natal.

DIFERENÇAS DA VENEZUELA

Ao comparar Brasil e Venezuela, Asya, que sobreviveu à fome, é enfática ao falar sobre a diferença de acesso a serviços básicos. Ela relata episódios de extrema precariedade no sistema de saúde venezuelano, incluindo a falta de medicamentos, vacinas e até materiais hospitalares básicos. Entretanto, expõe a história do seu filho, que correu risco de vida na Venezuela pela precariedade estrutural e material dos hospitais. Após 26 dias do seu nascimento, foi necessária a internação de seu filho e era necessário comprar todos os materiais usados pelos médicos: agulhas, antibióticos, até mesmo a luva usada pelo médico. Por essa carência estrutural e ainda compartilha que era comum ver pessoas morrendo nos hospitais públicos por não possuírem poder aquisitivo para comprar medicações e demais materiais: “Aqui, pelo menos, existe acesso. Existe dignidade”, afirma.

Apesar da gratidão ao Brasil, a saudade da família permanece como a maior dor da imigração. Datas comemorativas e momentos de fragilidade evidenciam a ausência dos pais e da convivência familiar. Para o futuro, Asya sonha em ver os filhos formados, livres para escolher seus caminhos e com acesso a oportunidades que não teriam na Venezuela. Ela também deseja concluir sua formação e empreender, conciliando o trabalho com os cuidados familiares. Asya enxerga o Brasil não só como um lugar que a devolveu a esperança, mas também como um lugar onde ela e a sua família possam sonhar com um amanhã promissor e livre.

Relato de Asya Jimenez expõe impactos e dificuldades da imigração

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